Enxergando pelas lentes da fotografia

Dia 16 de fevereiro de 2019, a Arca do Saber realizou uma entrevista exclusiva com Antônio Walter Barbero, conhecido como Teco Barbero, jornalista, palestrante, fotógrafo e um dos autores do livro “Histórias de Baixa Visão”.

O que Teco tem de incomum? Com apenas 0,05% de visão, Teco é fotógrafo profissional. Junto com a sua parceira de trabalho Micheli Correia, a primeira cinegrafista cega do Brasil, eles produziram o documentário “Olhar Sensível”, que retrata o universo da fotografia sob o olhar da acessibilidade.

 

O começo

Teco ingressou na fotografia em 2002. Cursava jornalismo na universidade de Sorocaba quando realizou o primeiro curso de fotografia para deficientes visuais no Brasil, com o conceituado fotógrafo e jornalista Wellington Kermes.

 

De aluno a professor

Em 2010, Teco recebeu um convite da Secretaria da Pessoa com Deficiência do Estado de São Paulo e de uma colega fotógrafa para participar de um workshop. Em virtude de uma campanha realizada para a Associação Desportiva para Deficientes – ADD, exibida nos cinemas e que chamou a atenção do público, começaram a aparecer convites para a realização de workshops, fato que o tornou conhecido na comunidade de pessoas com deficiência visual e em instituições.

Já como professor de fotografia, o primeiro desafio foi fazer com que as pessoas com ou sem problemas visuais passassem a pensar diferente, do olhar clínico à percepção dos outros sentidos. Os alunos apreciaram esse novo enfoque. Para Teco, um bom fotógrafo precisa, acima de tudo, ter sensibilidade, e é isso o que ele promove em seus cursos.

 

Dificuldades dos alunos com deficiência visual

Teco acredita que a principal dificuldade para um aluno com deficiência visual seja a forma de pensar. É necessário que ele entenda que, apesar de não conseguir visualizar as fotografias que tira, o resultado do seu trabalho é visualizado por outras pessoas e pelos seus clientes. Infelizmente, o aluno não tem o recurso da audiodescrição na fotografia, mas essa e outras barreiras que possam surgir precisam ser superadas.

Há dificuldades técnicas como: posicionamento correto, direcionamento das habilidades de percepção para a fotografia, enquadramento, etc. Entretanto, essas particularidades são ensinadas nos workshops que ele ministra.

 

 

O estranhamento das pessoas

Teco já cobriu eventos de grande porte com a presença de governadores e de outros membros da imprensa, e já presenciou algumas pessoas intrigadas com o seu trabalho de fotógrafo. Em várias ocasiões, enquanto alguém ao seu lado lhe transmitia informações ao pé de ouvido, as pessoas o observavam e mostravam curiosidade em saber o que ocorria; ao tomarem conhecimento de que Teco era fotógrafo profissional e deficiente visual, se surpreendiam.

Teco sabe que chama a atenção de outros colegas fotógrafos e também da imprensa. Já realizou vários trabalhos em vídeos com a primeira cinegrafista cega do Brasil Michele Correia, e as pessoas ainda estranham em ver esses dois profissionais com deficiência visual gravando um vídeo. Para Teco, essa descoberta o torna conhecido no meio; por outro lado, as pessoas demoram a dar crédito ao trabalho que realiza.

 

Entraves enfrentados

Convencer as pessoas é a principal dificuldade. Ainda há muito preconceito em relação à fotografia realizada por quem tem deficiência visual. A contratação pelas empresas é um trabalho de formiguinha. É necessária muita divulgação para que haja interesse e que as empresas se certifiquem da capacidade desses profissionais, e isso demanda tempo.

Outro entrave é a própria tecnologia. Embora haja evolução nessa área, não há câmeras com acessibilidade, o que impossibilita que as pessoas com deficiência visual aproveitem todos os recursos oferecidos por esses equipamentos.

A falta de profissionais dispostos a trabalhar em parceria pode criar uma certa dificuldade em trabalhos mais complexos. Assim como ocorre com qualquer outro fotógrafo, ter uma equipe ou alguém que lhe dê um suporte em eventos de grande porte é uma mão na roda. 

Todos esses fatores ainda são impactantes na carreira profissional de um fotógrafo com deficiência visual. Entretanto, isso pode ser mudado com a consciência da população sobre a importância da acessibilidade no nosso mundo.

 

O real significado da fotografia

Para Teco, a fotografia significa oportunidades, aberturas de portas, sonhos realizados…

Nas próprias palavras de Teco: “Se não fosse a fotografia, não saberia quem sou, desde 2012. Ela faz parte da minha vida e transformou o meu próprio modo de pensar em relação às imagens. Penso na fotografia como uma forma de expressão da minha arte e também uma forma de ajudar o mundo se tornar um pouquinho mais inclusivo, graças ao meu conhecimento de fotografia e à oportunidade de poder passar isso a outras pessoas e fazer com que elas transformem as suas vidas por meio da fotografia. Isso é incrível, é maravilhoso!”.

 

Querido leitor, Teco é fonte de inspiração. Muitos de nós, sem problemas visuais, às vezes, permitimos que a nossa visão fique embaçada pela incredulidade frente às pessoas que visualizam no “impossível” a certeza da realização concreta dos seus sonhos.

 

Se quiser saber mais sobre o incrível trabalho de Teco Barbero, acesse os links abaixo. No seu canal do YouTube “Olhar Diferente”, há uma entrevista que ele fez com o astronauta brasileiro Marcos Pontes. Imperdível!

http://tecobarbero.blogspot.com/

https://www.youtube.com/channel/UCC13KhAX5KgBz_4wXsGLQow