A minha primeira tradução

O primeiro projeto de tradução é como o mote do comercial veiculado em 1987, que se referia ao primeiro sutiã de uma adolescente: “A gente nunca esquece”.

Pode parecer piegas, mas a alegria e o empoderamento que a mocinha do comercial sentiu ao conquistar algo que ela provavelmente vinha querendo há algum tempo, podem vir atrelados a sentimentos não tão auspiciosos quando se enfrenta a primeira tradução. E para ilustrar esse cenário e não deixar a peteca cair diante do primeiro obstáculo, falaremos sobre a problemática do primeiro trabalho de tradução.

Você se preparou direitinho, fez cursos específicos de tradução, sabe bem um ou mais idiomas, tem ótimo conhecimento da gramática do idioma de chegada (texto traduzido), sabe usar uma CAT Tool (ferramenta de auxílio à tradução), preocupa-se com o seu marketing pessoal (currículo, portfólio, perfis nas redes, etc.), participa de grupos voltados à tradução, enfim, está pronto e animado para traduzir projetos.

Como esperado, você recebe uma ligação ou um e-mail de uma agência sobre um trabalho de tradução e fica eufórico, afinal, é a primeira vez que é contatado… O seu primeiro projeto, a sua possibilidade de ganhar dinheiro nessa nova profissão, de usar uma CAT Tool em um trabalho real… Ah, quanta coisa não passa pela sua cabeça! E nesse momento de êxtase, a probabilidade é que acabe concordando inicialmente com tudo: prazo de entrega, valor, volume de trabalho, especialidade… Porém, a poeira baixa e você, diante do computador, olhando para o arquivo e percebendo o tamanho do desafio, pensa: “Nossa, mas é muita coisa!”, “Como converto esse arquivo?”, “O prazo é muito curto, mas eu já aceitei!”, “O que faço agora?” Pois bem, vamos juntos tentar encontrar possíveis soluções para evitar esses questionamentos invasivos à nossa mente, que nos atrapalha e nos tira a alegria da primeira conquista. Como se diz atualmente: “Bora!”.

LIDANDO COM O PRIMEIRO PROJETO

Neste artigo, abordaremos especificamente o contato feito por uma agência, sem mencionar os clientes diretos e os intermediários. Agora, a seguir, dicas e orientações sobre o que devemos fazer e evitar quando recebemos o primeiro trabalho de tradução:

Atendimento focado. Se o contato for por telefone e/ou celular, procure atender a chamada em um local tranquilo. Evite falar perto da televisão ligada ou do cachorrinho latindo ou de crianças gritando. Procure um local em que possa conversar, sem interrupções. Se estiver dirigindo, estacione o carro. Primeiro, porque é proibido dirigir e falar ao celular ao mesmo tempo e segundo, porque você, mesmo com fone de ouvido (no veículo), pode perder o foco durante a conversa por causa do barulho e da movimentação e deixar escapar algum detalhe muito importante.

Avaliação do projeto. Avalie o projeto antes de discutir ou aceitar de imediato o trabalho. Peça para ver o arquivo, assim você poderá avaliar o volume do documento entregue e mensurar o tempo que levará para traduzi-lo, o grau de dificuldade que terá em vista da terminologia específica, o material de apoio (glossário, dicionários, etc.) que utilizará durante a tradução, a melhor opção para converter o arquivo, e outros pormenores.

Prazo. É um ponto crucial. Se você combinou um prazo, deve cumpri-lo. A não ser que ocorra algo que realmente lhe impeça de realizar o trabalho, como por exemplo, uma enfermidade inesperada. Nesse caso, contate a agência e explique o ocorrido. Não deixe para a última hora. Avalie se tem condições de entregar o projeto na data que a agência estipulou. Não há coisa pior do que não cumprir um prazo combinado por ter calculado o tempo de execução e a entrega de maneira incorreta.

Especificidade. Não diga que realiza qualquer tipo de tradução. Dá a impressão de que você está participando de um jogo de paintball, atirando para qualquer lado, sem acertar o alvo. E você também pode receber um projeto contendo terminologias muito específicas com as quais não tem familiaridade e que exigirão muita pesquisa e, consequentemente, mais tempo do que você imaginava para a realização do trabalho. E para não perder o prazo, acabará passando as noites em claro, o que não é saudável. Isso sem falar no problema de adotar termos que não sejam adequados ao contexto. Foque nas suas especialidades, na sua zona de conforto. Depois, com o tempo, você poderá traduzir documentos de outra área, estudando as terminologias específicas, fazendo cursos sobre essa nova especialidade, entendendo mais sobre o assunto.

Valor. Tenha em mente o seu preço calculado e variantes, caso opte pela negociação. Na hora da emoção, e sem perceber, pode ser que você aceite um valor abaixo do que havia planejado como a sua meta de trabalho e se arrependa depois. Não tenha medo de negociar e muito menos de recusar os preços que não condizem com seu orçamento. Esse projeto não será o único na face da Terra. Tenha certeza de que outros surgirão. E saiba que se você aceitar um determinado valor, dificilmente conseguirá um aumento a curto prazo para futuros trabalhos dessa mesma agência.

Pagamento. Não tenha medo nem receio de perguntar como será feito o pagamento. Às vezes, a agência esquece de informar esse detalhe. É importante saber a data de pagamento para que você possa se planejar melhor e pagar as suas contas em dia. Procure saber também se a agência aceita nota fiscal ou RPA, caso você ainda não tenha aberto a sua empresa. É importante acertar esse detalhe antes do início do projeto. Já pensou se após a entrega da tradução a agência informa que precisará de nota fiscal para efetuar o pagamento e você não tem como prover essa nota?!

Conexão. Concentração total no projeto, sem interrupções como acesso aos e-mails, ao celular, às redes sociais… isso é bom ou ruim? Se falarmos de procrastinação, ou seja, atividades que literalmente roubem o seu tempo, o melhor é tentar evitá-las ao máximo. Por exemplo, deixe para curtir ou comentar sobre posts em redes sociais quando tiver um tempinho livre. Caso não consiga e os seus dedos formiguem, uma dica é fazer isso antes de iniciar o projeto, em uma paradinha na hora do almoço e/ou no fim do dia. Mas lembre-se de que você tem um prazo para entregar o trabalho.

Por outro lado, atente-se aos e-mails e às chamadas pelo WhatsApp e pelo Skype. A agência pode lhe enviar alguma mensagem urgente como uma substituição de um texto ou uma antecipação ou extensão de prazo, ou qualquer outra informação importante e você só tomará conhecimento se estiver atento e conectado. Habilite sons informando sobre a chegada de alguma mensagem e dê uma olhada rapidamente. Se não for nada realmente importante, deixe para ler mais tarde. Não procrastine.

Revisão. Parece simples, mas esse é um item que acaba gerando muitos problemas. Você recebe um texto, usa uma CAT Tool para a tradução, gera um documento final e o envia para a agência, sem se atentar muito à revisão. Dois problemas podem ocorrer: formatação incorreta e erros gramaticais. Por mais que você preste atenção nas “tags” geradas pelas CAT Tools, mantendo-as nos lugares corretos, nem sempre a versão traduzida (de chegada) estará idêntica ao texto fonte (de partida). Por isso, antes de se afobar para entregar o material, veja se as duas versões estão alinhadas quanto à formatação. O documento pode estar desconfigurado e você nem notar.

E quanto aos erros gramaticais, não confie apenas no corretor ortográfico do Word ou da própria CAT Tool. Busque outras ferramentas que consigam “pegar” os erros gramaticais, “tags” e outros problemas ortográficos. Mas um conselho, não entre em pânico caso a sua tradução apresente erros após a revisão. Sempre haverá alteração, por mínima que seja, e à medida em que você traduz e revê a gramática, principalmente o que foi apontado na revisão, você melhora a sua escrita. Não existe perfeição, o que existe é aprimoramento para que a próxima tradução seja melhor do que a anterior e assim, sucessivamente.

Feedback. Encare esse processo naturalmente. Não procure chifre na cabeça de cavalo, a não ser de unicórnio (rs). Foi a sua primeira tradução e, certamente, haverá alterações. Saiba lidar com o impacto de ver o seu documento revisado e todo verdinho (se o revisor for amigável!). Aprenda com os comentários mesmo que a princípio discorde dos termos trocados, excluídos ou incorporados à sua tradução. Lembre-se de que você está realizando um projeto para uma determinada agência e que ela segue as orientações do cliente. Com base no arquivo final, já revisado, crie um glossário específico para esse projeto. Não é improvável que a agência lhe envie um novo trabalho sobre o mesmo assunto e para o mesmo cliente e, nesse caso, você já terá um glossário inicial com as terminologias específicas para servir de apoio.

Celebração. Comemore. Foi o seu primeiro trabalho como tradutor. Vibre muito e recompense a si mesmo – um chocolate, uma ida ao cinema, um passeio pela praia ou pelo parque, uma ida à academia, uma parada para um joguinho no computador ou para ver um filme na TV, enfim, parabenize-se por essa etapa vencida. O importante aqui é sentir-se bem, relaxar e se preparar para o próximo desafio.

E, como conselho pessoal, não tenha medo nem receio de nada. Encare esse processo como uma avaliação pessoal, da qual você poderá avaliar os pontos positivos e os que ainda necessitam de ajustes. Pense positivo. Encare o projeto como uma oportunidade de experiência. E tenha em mente que a próxima tradução será melhor e que você se sentirá cada vez mais confiante. Mãos à obra!

Por Ligia Ribeiro