Manipulação da tradução em prol da comercialização

A manipulação de um texto é um assunto que desencadeia uma discussão mais acirrada, pois é confrontada, por um lado, pela afirmação de que as traduções buscam sempre a fidelidade ao texto de origem e, por outro, de que os tradutores buscam adequar vocábulos e até mesmo frases inteiras em prol de um melhor entendimento da obra por parte de leitores ou telespectadores.

A censura, fator impactante em épocas passadas, contribuiu muito para a restrição da linguagem, impondo regras e controlando rigidamente o que era veiculado no Brasil. Hoje, ainda temos a questão do controle, mais ameno, visando melhor adequação aos padrões sociais e culturais de nossa sociedade.

Isso é bem ressaltado na tradução audiovisual, principalmente em filmes exibidos em canais abertos, pagos ou até mesmo em exibições online.  O uso de palavrões em produções estrangeiras, por exemplo, é muito comum, mas o tradutor manipula o texto buscando amenizar esses termos de baixo calão, dependendo do horário e do canal em que essas produções serão exibidas.

Sabemos que o nosso idioma é riquíssimo em terminologia e que podemos utilizar um leque de opções, incluindo sinônimos, que possibilitam prover uma nova roupagem a um determinado texto, tornando-o mais atrativo aos leitores e, consequentemente, gerando um lucro maior de vendas. Isso sem falar no próprio título da obra.

Muitos leigos desconhecem que a editora, a agência, o estúdio de gravação e até o mesmo o cliente direto solicitam ao tradutor sugestões de títulos, no idioma em que a obra será traduzida, porém nem sempre elas são consideradas. A manipulação ou adaptação da nomenclatura procura levar em consideração a cultura do país, o apelo atrativo que fará com que leitores ou espectadores queiram comprar ingressos para ver um determinado filme ou adquirir um livro específico.

Para entender melhor, vejamos alguns exemplos de filmes e livros cujos títulos diferem da tradução literal:

TÍTULO ORIGINAL                 TRADUÇÃO ADAPTADA        TRADUÇÃO LITERAL

The Hangover                    Se beber, não case                 A ressaca

The Silence of Lambs       O silêncio dos inocentes        O silêncio das ovelhas

Animal Farm           A revolução dos bichos       Fazenda / Quinta dos animais

Em alguns casos específicos, deixa-se de lado a questão cultural e opta-se por manter o título ou parte dele no idioma de origem, manipulando-o para atingir o seu objetivo comercial. Exemplos:

Título original:

Good to Great: Why Some Companies Make The Leap… And Others Don´t” (Jim Collins)

Drive: The surprising Truth About What Motivate Us” (Daniel H. Pink)

Tradução brasileira, adaptada:

Good to Great:  Empresas feitas para vencer”

Drive: A surpreendente história sobre aquilo que nos motiva”

Muito se fala sobre os títulos traduzidos de forma não-literal. Esse assunto leva a uma série de discussões e debates e quero deixar claro aqui que, talvez, houvesse outras alternativas para os títulos, mas cá entre nós, quem sairia de casa em um dia frio e chuvoso de inverno para ir ao cinema assistir a “Congelados”? “Frozen”, embora signifique a mesma coisa, não parece mais sugestivo?

Você, que gosta de ação, violência, máfia, conspiração… se encantaria com o título “O Padrinho” (“Godfather – O poderoso chefão”), que transmite significado oposto (na maioria das vezes, dependendo do padrinho… rs)?

Outro exemplo, o grande filme de Alfred Hitchcock “Vertigo” ganhou a tradução de “O corpo que cai”. Alguns acreditam que a história já é explicitamente contada no próprio título, mas alguém com fobia de altura ou labirintite teria prazer em assistir ao filme “Vertigem”?

Claro que amenizações, trocas de vocábulos, adequação de termos, uso de expressões idiomáticas… tudo isso faz parte da manipulação de uma obra em prol da sua comercialização, e também para que ela se aproxime cada vez mais da cultura do país, em cujo idioma ela foi traduzida, bem como do seu leitor ou espectador.

Às vezes, manipular o texto faz parte da tradução. Entretanto, isso pode tornar o tradutor “visível”. E essa visibilidade pode interferir de forma positiva ou contrária no contexto da obra. Mas esse conceito será tema de outro post.

Por Ligia Ribeiro