Modalidades desafiadoras da tradução para dublagem

Bem-vindos à série olímpica “Modalidades desafiadoras da tradução para dublagem”. Neste artigo, vamos abordar alguns desafios encontrados pelo tradutor de dublagem. Antes de dar continuidade, gostaria de ressaltar que esse é um gênero de tradução que considero muito importante porque é por meio dele que as pessoas com algumas limitações também podem assistir a programas televisivos como: séries, filmes, desenhos, reality shows, etc. Fico feliz em poder realizar projetos nessa área. É uma forma de dar uma contribuição a esses telespectadores.

Para você, que está pensando em iniciar na tradução para dublagem ou quer saber mais um pouquinho sobre os desafios que esses profissionais enfrentam, prepare-se para as modalidades a seguir.

Modalidade 1: “A corrida destrambelhada do tempo”

O tempo tem sido um personagem principal e extremamente marcante nos dias atuais. Dada a largada, ele dispara na frente e faz com que o tradutor, nem sempre atlético, tenha que se esforçar ao máximo para alcançá-lo. Já nos últimos instantes, com o corpo cansado, o coração saindo pela boca, os olhos secos como as areias do deserto e quase sem fôlego, o nosso tradutor cruza a linha de chegada com mais um projeto concluído.

Descrevendo o que acontece com a tradução para dublagem, saiba que os scripts, em sua maioria, são enviados ao tradutor já com a menção de que o prazo de entrega é sempre curto. Antes do lançamento de uma temporada de uma série com vários episódios, por exemplo, o estúdio tem um determinado tempo para realizar a revisão, a dublagem, a mixagem, as adequações e quaisquer outras etapas necessárias, até que tudo seja aprovado pelo cliente e a produção seja exibida em canais específicos. E é claro que toda essa pressão é repassada ao tradutor. 

Outros gêneros de tradução também participam dessa modalidade. O tempo é um fator determinante a todos.

A tradução para dublagem engloba muitos detalhes como: letreiros ou placas (RJ/SP) que aparecem nos filmes, reações de personagens (suspiro, gemido, risada, etc.), vozerio com sugestões de falas (pessoas em bares, restaurantes, na rua, etc.), e outros detalhes. A criação de glossários, principalmente para séries que serão traduzidas em conjunto com outros tradutores, pode e deve fazer parte dessa lista. Vamos entender mais sobre essa modalidade.

Modalidade 2: “Nadando em sincronia sem se afogar”

Na prova anterior, digo, no parágrafo anterior (rs!), mencionei a criação de glossários para os projetos de tradução, realizados em conjunto com outros tradutores. No entanto, por que isso é necessário? Lembra da temporada da série, com vários episódios? Às vezes, o prazo é tão limitado que para um único tradutor seria inviável realizar a tradução de todos os episódios. Nesse caso, o trabalho é compartilhado com outros tradutores. O problema aqui é a falta de sincronia entre esses profissionais. Isso ocorre porque, mesmo traduzindo com o script em mãos, cada tradutor dá o seu próprio tom à tradução, por exemplo, amenização ou não de palavrões, inclusão de gírias e expressões coloquiais, pitadas de humor, criação de termos, etc.

Com a criação de glossários, que são compartilhados pelos tradutores, há coerência entre os termos que podem aparecer em vários episódios da série, tanto na primeira temporada como na última, por exemplo. Por isso é importante que todos os tradutores envolvidos atualizem os glossários e sigam os termos, o que muitas vezes não ocorre. E, de novo, um dos motivos é a corrida contra o tempo. Claro que há também os que sentem uma preguicinha em consultar esses glossários, mas lembre-se de que é importante dar atenção ao público alvo desse projeto, que merece assistir a produções com qualidade.

Já que mencionamos vários tradutores, aí vem o terceiro desafio para o tradutor de dublagem:

Modalidade 3: “A passagem frenética do bastão”

Neste desafio, o tradutor tem que conseguir receber o bastão de outro tradutor e entrar na corrida contra o tempo (Ufa! Outra vez o dito cujo!). Explicando melhor, é a situação em que uma série, anteriormente traduzida por um tradutor, por exemplo, passa a ser traduzida por outro, seja lá por qual motivo for. Ou, quando o primeiro tradutor não pode realizar a tradução de um determinado episódio (afastamento por férias, doença, algum assunto particular) e o segundo tradutor é convidado somente para aquele único projeto.

O ideal seria se a tradução da continuidade de uma produção pudesse ser realizada pelo mesmo tradutor ou tradutores que a iniciaram. Mas, como isso pode não ser possível, o novo tradutor acaba enfrentando dificuldade no recebimento do bastão ou porque ele não conhece a série, ou por não ter assistido a qualquer um dos episódios anteriores ou por não ter lido as traduções já realizadas para melhor se adequar à história, a época e aos personagens, ou por não ter à disposição os glossários para ajudá-lo com os termos, as expressões e os vocábulos.

Somando o fator tempo, que sempre dificulta a busca por informações mais abrangentes sobre esse projeto, o tradutor se depara com um grande desafio: realizar a tarefa, sem deixar cair a peteca (rima proposital).

Glossário:

  1. sem deixar cair a peteca: malabarismo que o tradutor faz no seu dia a dia ao lidar com prazos apertados, projetos extensos e demais itens que abrangem um projeto de tradução.

Todos esses desafios fazem parte da tradução para dublagem, mas podem se encaixar em outros gêneros. Eles servem para que o tradutor tenha ciência de que além de todos os requisitos necessários para uma boa tradução, é preciso ter perseverança para continuar, mesmo quando houver alguns tropeços pelo caminho, e resiliência para que depois de momentos de pressão, ele consiga voltar ao estágio inicial, sem deformações.

Para os que querem ingressar no gênero da tradução para dublagem, desejo que consigam vencer as modalidades e chegar ao pódio olímpico com sucesso!