Alhos viram bugalhos na tradução

Para quem não conhece a expressão “Não confunda alhos com bugalhos”, aí vai uma rápida e simples explicação, sujeita a controvérsias, como sempre. Todos conhecem o alho e a cabeça do alho; a aparência deles é bem rechonchuda. O bugalho é um fruto, também considerado como uma hipertrofia que aparece em certas árvores, como o carvalho, cujo formato é semelhante ao do alho, por ser bem protuberante. Há pessoas que dizem que a expressão se originou dessa confusão que alguns faziam entre os dois. No entanto, há os que preferem a versão de que a origem surgiu por causa do formato de ambos, semelhante a grandes globos oculares, esbugalhados. Isso tudo sem falar na rima: alhos e bugalhos.

Mas, no fim das contas, a expressão se refere a não misturar, trocar ou confundir uma coisa com outra. Em outras palavras, já associando à tradução, seria não usar um determinado termo que não condiz com o contexto. Nossos falsos amiguinhos em inglês (falsos cognatos) estão aí para provar isso.

Com base na explicação acima, você diria que o título do artigo está errado. Na verdade, não. O propósito aqui é mostrar justamente o oposto, que os termos, os ditos alhos e bugalhos, podem se misturar.

Todos sabem que a língua portuguesa tem o privilégio de ser extremamente versátil e riquíssima em vocábulos, o que dá ao tradutor a possibilidade de navegar pelos variados sinônimos em busca do termo que mais apropriado à sua tradução.

E por esse motivo, principalmente nos gêneros de tradução para dublagem, legendagem e editorial, algumas palavras de origem inglesa podem conter variantes no português brasileiro.

Para exemplificar, vejamos o termo em inglês “man”. Dependendo do contexto, o tradutor tem um leque de opções para traduzi-lo. Vamos ver algumas delas:

  • Origem: That is the man who gave me the money;
  • Destino (possibilidade simples): Esse / Aquele é o homem que me deu o dinheiro.

Algumas variantes da palavra “man”: cara, sujeito, senhor, indivíduo, criatura, ser, etc.

Por outro lado, seguindo o título deste post “Alhos viram bugalhos na tradução”, vamos ver algumas “brincadeiras” que o tradutor pode fazer com os termos “man” e “money”, adaptando-os, sem perder a coerência textual. Exemplos:

  • Origem: That is the man who gave me the money;
  • Destino (uma possibilidade adaptada da palavra “man”): Esse / Aquele é o mané que me deu o dinheiro.

Algumas variantes da palavra “man”, adaptadas:  otário, mano, gato,  amarelão, chapa, garotão, parceiro, etc.

Agora vamos fazer o mesmo com o vocábulo “money”:

  • Destino (uma possibilidade adaptada da palavra “money”): Esse / Aquele é o mané que me deu a grana.

Algumas variantes da palavra “money”, adaptadas:  bufunfa, cacau, bolada, tutu, dólares, etc.

Percebam que os alhos “man” e “money” podem se tornar diversos bugalhos:

  • Esse é o otário que me deu a bolada;
  • Aquele é o gato que me deu a grana;
  • Aquele é o mano que me deu os dólares.

E por aí vai. Dependendo do contexto, o tradutor pode brincar com os termos. Não é divertido? E isso tudo é porqueo nosso idioma possibilita essas variações.

Para quem está começando na tradução, principalmente no gênero audiovisual, na maioria das vezes é necessário que se faça adaptações para que os diálogos estejam mais próximos da nossa cultura e dos telespectadores. Claro que cada caso é um caso, mas é bom podermos deixar a nossa imaginação fluir e buscar outras alternativas além das tradicionais.

Misturar alhos e bugalhos pode resultar em um baralho cheio de cartas coringas. Pode apostar.

Por Ligia Ribeiro