A acessibilidade atingível pela tradução intersemiótica

A tradução nos permite fazer escolhas, não só do que traduzimos, mas também das áreas em que podemos atuar: tradução literária, técnica, audiovisual e intersemiótica. Nesta última, enquadra-se a audiodescrição.

Ainda em processo de consolidação global, a audiodescrição vem ganhando novos admiradores e conquistando o espaço merecido no contexto social, cultural, educacional, institucional e de entretenimento.

Para realizá-la, é preciso que os tradutores adquiram entendimento substancial sobre as diretrizes da audiodescrição. Entretanto, ainda há uma carência por subsídios textuais que provenham ao audiodescritor tal conhecimento. No Brasil, por exemplo, boa parte dos professores de audiodescrição adquiriram instrução por meio de cursos no exterior, no âmbito universitário local e na prática, interagindo diretamente com pessoas com deficiência visual.

O próprio vocábulo da tradução intersemiótica é passível de discussões. Há os que afirmam que a palavra “audiodescrição” deva ser aglutinadamente grafada, sem hífen, inclusive conforme vigente no Acordo Ortográfico de Portugal. Em oposição, há outros que ressaltam que a grafia deva ser feita com a acentuação e o uso do hífen, “áudio-descrição”, por tratar-se de um novo significado semântico.

Controvérsias à parte, apesar das divergências que também possam surgir quanto às escolhas feitas por esses profissionais durante os trabalhos de audiodescrição, o importante é que aos poucos a AD vem se adequando de forma correta às necessidades de quem dela depende para compreender as imagens que lhe são audiodescritas.

A princípio, é natural que um iniciante queira descrever todos os detalhes em minúcias. Contudo, é importante ressaltar que na audiodescrição nem todos os elementos visuais são audiodescritos. O excesso de informações pode gerar o resultado contrário ao que se deseja. Quanto mais longa for a audiodescrição, mais exaustivo será o processo de compreensão do conteúdo imagético.

Aos tradutores que leem este artigo e que têm interesse pela audiodescrição, há nichos de mercado que precisam de profissionais qualificados: exposições de arte, museus, palestras, musicais, peças teatrais, educação, vídeos institucionais, eventos, videoaulas, produções audiovisuais, entre outras inúmeras possibilidades. O mercado para a audiodescrição é amplo, já que podemos audiodescrever tudo ao nosso redor. No entanto, o iniciante em audiodescrição precisa conhecer as principais diretrizes que regem a AD, observar o que vê e saber descrever a imagem de forma coesa e concisa. Na verdade, extraímos o que é relevante sem interferir na interpretação das imagens audiodescritas, sem explicá-las nem opinar sobre elas. O empoderamento da interpretação é dado diretamente ao próprio usuário da AD.

A audiodescrição é desprovida de subjetividade no que se difere do processo da descrição, em que é possível qualificar com adjetivos as características e o comportamento das pessoas e/ou personagens. Qualquer um pode descrever; audiodescrever, só os capacitados para esse trabalho. E essa capacitação é obtida por meio do estudo e da prática. A teoria provém o conhecimento e a prática o consolida.

Os bons formadores de audiodescritores e os profissionais da área não param de estudar; reciclam e adquirem novos conhecimentos, compartilham experiências com outros profissionais da audiodescrição e estão sempre em contato com o usuário da AD para prover-lhes uma audiodescrição qualificada e empoderativa.

A acessibilidade faz parte de um mundo civilizado, em que todos temos os mesmos direitos e deveres. A audiodescrição é apenas uma das vertentes da inclusão. Entretanto, ela propicia um imenso prazer tanto para quem a realiza quanto para quem dela se beneficia.

Por Ligia Ribeiro